A relação entre pessoas, empresas e governos com o tempo e o clima está passando por uma transformação necessária. Miro Lima, economista e diretor da Meteoblue Brasil, explica que essa mudança não é só técnica, é cultural. A partir de inteligência artificial, redes de estações meteorológicas e cooperação entre setores, é possível tornar previsões mais precisas, diminuir riscos e melhorar decisões em áreas como agricultura, logística, planejamento urbano e seguros.

Sumário
- Por que transformar a relação com o clima?
- O que é a Meteoblue e de onde veio a tecnologia
- Satélite versus estação meteorológica: qual é o papel de cada um?
- Por que a qualidade dos dados importa tanto?
- Cooperação público-privada como caminho
- Aplicações práticas: onde previsões corretas fazem diferença
- Projetos em andamento no Brasil
- Tecnologia por trás da operação: IA, pós-processamento e modelos
- Levar previsão ao cidadão: simplicidade é essencial
- Mudança cultural: previsão como prática de gestão
- Como acessar e conhecer as soluções
- Considerações finais
- Perguntas Frequentes
- Links e contatos
Por que transformar a relação com o clima?
Miro destaca que em muitas partes do hemisfério norte a população vive em função de avisos e trackings de fenômenos severos como furacões e nevascas. Esses sistemas informam rota, intensidade e horários, permitindo decisões concretas: sair de casa, proteger bens, cancelar eventos. No Brasil, por outro lado, a relação com o clima ainda é mais casual — assunto para conversas e reclamações — quando deveria ser instrumento de gestão e proteção.
O desafio apontado por Miro é claro: aumentar a confiança na informação climática e desenvolver cultura de uso de dados em decisões cotidianas e estratégicas. Para ele, transformar a forma como as pessoas, empresas e governos se relacionam com o tempo é tanto uma missão técnica quanto um trabalho de educação e comunicação.
O que é a Meteoblue e de onde veio a tecnologia
A Meteoblue nasceu de um projeto de pesquisa na Universidade da Basileia. Desde 2002, desenvolve uma inteligência artificial específica para análise de modelos meteorológicos. Em 2006 o projeto virou empresa e, por volta de 2015-2017, já estava entre os maiores provedores de dados climáticos do mundo.
Hoje a Meteoblue atua globalmente e no Brasil atende o mercado há mais de 10 anos, com clientes no agro e parcerias com autarquias sérias. A tecnologia combina modelos numéricos, imagens de satélite e bases locais de observação para gerar previsões de curto prazo e cenários de risco.
Satélite versus estação meteorológica: qual é o papel de cada um?
Uma dúvida comum é sobre onde nasce a previsão do tempo. Miro esclarece que 99% das previsões são geradas a partir de dados de satélite e modelos numéricos. As estações meteorológicas, por sua vez, têm papel essencial, mas específico: agir como fiscal de campo.
Estação meteorológica não é principal fonte de previsão, mas verifica o que de fato aconteceu em um ponto. Ela envia medições regulares e permite recalibrar modelos no processo de pós-processamento. Esse ciclo reduz erros e aumenta a assertividade das previsões.
Por que a qualidade dos dados importa tanto?
A qualidade, cobertura e distribuição dos dados determinam a eficácia de qualquer sistema de previsão. Miro dá exemplos práticos: engenheiros que dimensionam obras urbanas com base na "normal climática" dos últimos 30 anos podem estar usando um parâmetro que já não representa a realidade, levando a obras subdimensionadas e risco de falhas.
Obras, redes de drenagem, avenidas e manilhas precisam considerar mudanças recentes nos padrões de chuva. Se a normal climática muda e o projeto ignora isso, o impacto econômico e humano pode ser grande. Dados de qualidade são insumos para decisões robustas em infraestrutura, agricultura e seguros.
Cooperação público-privada como caminho
Miro resume a solução em uma palavra: cooperação. Nem empresas sozinhas nem governos isolados têm todas as respostas. O que funciona no hemisfério norte é justamente uma rede de colaboração entre instituições públicas, empresas de tecnologia, universidades e provedores de dados.
No Brasil, existe desconfiança no mercado por causa de promessas não cumpridas de algumas empresas. Isso cria barreiras para parcerias necessárias. A saída é construir confiança por meio de provas de conceito, projetos conjuntos com autarquias e transparência dos métodos e dados.
Aplicações práticas: onde previsões corretas fazem diferença
- Agro: decisões de plantio, colheita, armazenagem e transporte dependem do tempo. Cooperativas e grandes grupos do agro já adotam previsões para reduzir quebras.
- Logística e fulfillment: caminhoneiros e cadeias de distribuição sofrem com atrasos por chuva e condições adversas. Previsões ajudam a planejar carregamentos e evitar filas e perdas.
- Seguros: preços e disponibilidade de seguros agrícolas e de propriedades dependem de dados históricos e de risco. Sem dados precisos, seguros ficam caros e o mercado se retrai.
- Planejamento urbano: obras, bueiros e galerias precisam ser dimensionados com base em eventos extremos atualizados. Mudar o padrão climático redefine o desenho urbano.
- Eventos e segurança pública: estádios, festivais e rodovias podem ser geridos com alertas e trackings, reduzindo riscos à população.
Projetos em andamento no Brasil
A Meteoblue já tem projetos piloto no país. Um destaque é a parceria com a COCAMAR na região de Maringá, que envolve um triângulo de municípios, 60 cidades com alta densidade de coleta e a maior rede de monitoramento do país nessa fase.
O projeto contempla a instalação de micro estações meteorológicas para garantir volume e distribuição de dados. Inicialmente a densidade prevista era uma estação a cada 80 km2, com plano de expansão para uma estação a cada 50 km2, gerando dezenas de pontos reais de medição.
Outro projeto ambicioso é com o CMEPAR para Curitiba. A ideia é transformar a cidade em um exemplo de inteligência climática no hemisfério sul, importando as melhores práticas e tecnologias que existem nas cidades mais monitoradas do hemisfério norte.
Tecnologia por trás da operação: IA, pós-processamento e modelos
A Meteoblue nasceu com IA e continua a usar inteligência artificial treinada há mais de 20 anos. A IA é específica para análise de modelos meteorológicos e melhora à medida que recebe mais dados de pontos de monitoramento.
O sistema realiza pós-processamento contínuo: as previsões são comparadas com observações reais e recalibradas. No projeto que roda a cada 15 minutos, são usados 13 modelos meteorológicos simultâneos e reprocessamento de imagens de satélite — um volume de dados imenso que exige infraestrutura robusta.
Levar previsão ao cidadão: simplicidade é essencial
Ter previsões precisas não basta. É preciso que a informação chegue de forma simples para pessoas comuns: proprietários rurais, pedreiros, motoristas, donas de casa. Projetos de chatbot, integração com WhatsApp, relatórios automatizados e interfaces amigáveis são o próximo passo.
Miro sublinha que inovação só gera impacto se for acessível: "Inovação pode ser incrível se não conseguir produzir um resultado pela simplicidade da sua utilização." Traduzir dados complexos em recomendações práticas é parte central da missão.

Mudança cultural: previsão como prática de gestão
Mudar a mentalidade exige educação e demonstrações de valor. Nos anos 90 a previsão virou prática em vendas e produção; agora é hora de disseminar a cultura do forecast em meteorologia integrada aos processos das empresas e governos. Isso envolve associativismo, cooperação entre cooperativas, bancos e provedores de dados.
Quando gerenciar riscos se torna rotina, produtos ficam mais baratos, cadeias mais resilientes e a sociedade ganha em segurança e eficiência.
"Transformar o jeito que as pessoas pensam, refletem e decidem com base em dados climáticos é o grande ponto da virada de paradigma que o país precisa."
Como acessar e conhecer as soluções
Para quem deseja saber mais sobre serviços, portfólio e casos práticos, a Meteoblue disponibiliza informações técnicas no site global e materiais específicos para o mercado corporativo. Os endereços mencionados pelo time são meteoblue.com e meteoblue.com.br, que contêm PDFs e descrições dos serviços voltados a empresas, cooperativas e municípios.
Considerações finais
O Brasil tem um terreno fértil para a transformação climática baseada em dados. O trabalho envolve tecnologia de ponta, redes de observação, IA e, sobretudo, cooperação entre atores públicos e privados. Projetos em regiões como Maringá e em cidades como Curitiba mostram o caminho: densidade de coleta, pós-processamento constante e serviços orientados ao usuário final.
Mais do que reduzir perdas, mais do que melhorar índices de produtividade, esse movimento visa salvar vidas e tornar decisões mais responsáveis. Para Miro e para quem aposta nessa agenda, o objetivo é claro: trazer ao Brasil a cultura de previsões confiáveis e acessíveis que já transformaram a forma de viver e de gerir riscos em outras partes do mundo.
Perguntas Frequentes
O que é a Meteoblue e qual é o seu diferencial?
A Meteoblue é uma empresa suíça originada em pesquisa universitária que desenvolveu uma IA específica para previsão e análise meteorológica desde 2002. Seu diferencial está na integração de modelos numéricos, imagens de satélite e dados de estações locais, além do uso intensivo de pós-processamento e aprendizado contínuo para melhorar a assertividade.
Qual a diferença entre dados de satélite e estações meteorológicas?
Dados de satélite e modelos numéricos são a base de 99% das previsões. Estações meteorológicas funcionam como fiscais de campo, fornecendo observações pontuais e contínuas que permitem recalibrar modelos e reduzir erros no pós-processamento.
Como a previsão do tempo pode ajudar o agronegócio?
Previsões precisas ajudam na decisão de plantio, irrigação, colheita, armazenagem e logística. Cooperativas e empresas do agro que adotam forecast reduzem quebras, otimizam custos e melhoram o planejamento de entregas e estoques.
Quais são os benefícios para o mercado de seguros?
Dados meteorológicos de qualidade permitem mapear riscos com maior precisão, o que reduz incertezas para seguradoras e bancos. Com informações melhores, é possível ajustar preços, ampliar cobertura e tornar seguros mais acessíveis.
O que é o projeto para Curitiba?
Em parceria com o CMEPAR, o projeto visa transformar Curitiba em referência de inteligência climática no hemisfério sul, com mapas de clima urbano, monitoramento de alta densidade e as melhores práticas tecnológicas já utilizadas em cidades do hemisfério norte.
Como a inteligência artificial é usada nas previsões?
A IA da Meteoblue foi criada para analisar modelos meteorológicos, aprender com dados observacionais e melhorar continuamente as previsões. Quanto mais pontos de monitoramento e mais dados, maior a capacidade de aprendizado da IA e melhor a precisão.
Como pequenas empresas e cidadãos podem usar essas previsões?
O objetivo é disponibilizar informações por meio de interfaces simples, relatórios automatizados e integrações com aplicativos como WhatsApp. Assim agricultores, pedreiros, motoristas e donas de casa podem tomar decisões práticas a partir de previsões confiáveis.